quinta-feira, novembro 20, 2014

Enquanto não morro, envelheço



1. Enquanto não morro, envelheço, neste planeta molhado, donde entramos há poucos dias - trégua que Salvador nos dá antes do verão? -, neste planeta onde ficamos bem, um tanto azul-turquesa, um tanto azul-marinho, pois por mais problemas que saibamos vir a reboque da chuva, ainda é a chuva a linguagem mais densa e verdadeira que a natureza pode ter conosco.

2. Enquanto não morro, envelheço, véspera dos 43 e pensando o quanto seria perfeito se isso ocorresse agora, entre suas pernas e braços, agora, entre seus pêlos e dentes, agora, no nosso quarto, na sala, nas escadas, na chuva lá fora, em qualquer que fosse o canto, desde que entre suas pernas.

3. Enquanto não morro, envelheço, feliz por de repente sorver o silêncio - tão raro, tão fugidio - o silêncio nas folhas das amendoeiras, o silêncio dos passarinhos se sacudindo, o silêncio que mora embaixo da reforma irritante do prédio vizinho, o silêncio massacrado pelas rodas dos carros impacientes, pelas conversas estridentes de quem passa lá embaixo, falando besteiras no celular.

4. Enquanto não morro, envelheço, perscrutando o "depois" nos passos dele, vagarosos, na cozinha, no banheiro.

segunda-feira, outubro 27, 2014

"Não tenho nada com isso nem vem falar/eu não consigo entender sua lógica"



Ampliando aqui um pedido meu postado no FACE:

Peço, por gentileza, aos meus queridos facebooquianos, quer sejam amigos, quer sejam conhecidos, alunos, colegas, ou mesmo parentes e agregados: não me marquem em posts pseudo-positivos ou pseudo-revoltosos sobre o Nordeste e os nordestinos. Eu não compactuo com essas raivinhas criadas no calor da hora e sei perfeitamente a quem elas estão promovendo. Não percam seus preciosos tempos com essa baiana-nordestina aqui. Tenho memória suficiente das eleições presidenciais, a partir de 1989, quando comecei a votar, e sei perfeitamente dessas armadilhazinhas criadas tanto por quem vence como por quem perde. Ora são os paulistas que afundam o Brasil, ora são as elites, ora são os pobres, e quem mais servir de algoz à vítima do momento. É óbvio que todos nós, de alguma forma, sabíamos que o PT iria ganhar essa eleição, porém, é facultado aos cidadãos livres dizerem "sim" ou "não" às probabilidades. E eu disse, digo e direi NÃO a esse modelo de gestão. E digo não porque é uma gestão corrupta, fraudulenta, cerceadora, que se sustenta à base de bolsa/compra de voto com o dinheiro público, um aparelhamento do Estado imoral, embrulhado nesse discurso falso de socialismo, que, primeiro, distribui o ódio, depois, se faz de cordeirinho. Ganhe aqui e ganhe acolá, mas não com meu voto. Não tenho nenhum problema em ser baiana nem nordestina até porque muito pouco me servem essas demarcações superficiais. Dito isso, quero dar parabéns pelas manifestações tão preocupadas e tão sentidas e tão verdadeiras em relação ao nós, nordestinos, está sendo lindo, como diria Caê, mas me deixem de fora. Até porque sou uma pessoa irremediavelmente romântica e não posso me "deixar levar por um papo que já deu".

P.S. Se possível, ouvir a gravação de Roberto Carlos, com aquele nipe de metais... please!
http://www.youtube.com/watch?v=vQiSXnrVPVM

sábado, outubro 04, 2014

E aquela boa e velha mão na cara?



1. Existir é realmente uma tarefa árdua, por vezes ingrata. Não é à toa que Clarice Lispector (me refiro à escritora brasileira que nasceu na Ucrânia, não à Clarice do Facebook) escreveu: "nascer me estragou a saúde para sempre". É verdade. Nada mais nocivo à saúde, quer do corpo, quer da mente - que de resto estão hiperligados; nós, esquizos, é que os separamos - do que essa estranha ódio-amorosa vida que teimamos em viver.

2. Quero que você saiba, meu caro, minha cara, que estamos juntos nesse barco. Não é muito, mas, pense, pense, estar acompanhado(a) já é alguma coisa, não? Claro que sim. Seja forte, criatura!, resista mais um pouco, resistir é do humano, lembra?

3. Você que a cada minuto respira fortemente, pra dentro/pra fora. Respira, respira, rói as unhas, torce cacho, se faz de distraído(a), surdo(a), alheio(a), solta os ombros, pensa/repensa, e dá um tempo, em vez de pôr em prática a grande e genuína vontade de meter a mão na cara do(a) próximo(a), porque sim, está claro: ele/ela o merece tanto! Não, não se incomode com explicações, eu sei, você sabe, quiçá quem escreveu os 10 mandamentos também o soubesse, como não?, todavia, agora isso desimporta, o que quero lhe assegurar é por demais simples: continue. Resista à tentação. É um esforço indecente, mas se assim não fosse, esforço algum seria, certo?

4. Em tempos de eleição, esse esforço imenso de existir se estende a alguns amigos, conhecidos, colegas de trabalho, colegas da vida, artistas e escritores queridos, vizinhos, parentes, e ainda àquelas pessoas de vida fácil que acham que irão nos convencer, súbita e milagrosamente, a votar em sicrano ou beltrano. Ah!, você pensa, exalando cansaço por todos os poros da alma, quanta gente molusca no universo. É verdade, mas, veja, não nos cabe questionar a ordem do Universo. O Cosmo, desde os primórdios, é surdo a queixumes. Portanto, procure se resignar diante dessa gente molusca que estiver a lhe chatear os neurônios. Na pior das hipótese você está aprendendo a velha máxima grega: livre é aquela criatura que controla seus próprios instintos, está lembrado(a)?

4. Alguns conselhos óbvios pra lhe ajudar na empreitada:

4.1. Não perca seu tempo tentando explicar sua posição política ou apolítica; a pessoa que desconhece essa coisa mínima que é o respeito pelas escolhas, crenças ou percepções e posições alheias, está definitiva ou temporariamente na pele de um molusco, e assim não ouve nada que não seja o eco daquilo que ela deseja ver concretizado, a saber: sua adesão, seu voto.

4.2. Também não adianta complicar a coisa com o esmiuçamento de posições complexas, para além da polaridade partidária. Dizer que você não é de esquerda há cerca de 10 anos, mas que isso não lhe transformou numa pessoa de direita... bah! é vespeiro certo. Pra você é o óbvio, mas pros moluscos não! Já tentei isso, porque de fato é o que sou atualmente, todavia, os moluscos só enxergam o mundo assim: ou isso ou aquilo. Veja se meu exemplo lhe diz alguma coisa: mal comecei a falar sobre essa minha mudança de perspectiva política, uma amiga travestida de molusco (ou seria o contrário?!) lascou um amplo e sonoro "ah, qual é, Állex, foi João Filho quem te convenceu a não votar no PT, não foi?" Pra quem não sabe, João Filho é meu companheiro, meu marido, meu amante, meu melhor amigo, meu poeta preferido, e é assumidamente de direita. Nos casamos há 8 anos. Daí, o brilhante raciocínio da "pessoa". Que se pode dizer diante disso? Fui obrigada a responder que sim, claro, eu, como toda mulher, sou acéfala, não penso, não tenho vontade, sigo as ideias políticas do meu marido, que, como todo homem, pensa melhor. A molusca ouviu, fez cara de quem "estranhava minha fala", mas nem por isso se envergonhou, mudou de assunto, passando a elencar o bolsa-família, o bolsa-estudo, o bolsa-presídio, o bolsa-puta que pariu, porque o tal partido por ela defendido erradicou a fome no Brasil... Compreendeu o pepino? Pois é, tem do grosso e tem do fino, mesmo que você sofra do intestino.

4.3. Ignore as chantagens emocionais. Há seres humanos tão violentamente moluscos que piram e começam a nos chantagear em plena discussão. Apelam, descaradamente, porque querem que você se sinta constrangido e, assim, compre a ideia partidária dele(a). Simplesmente, se faça de desentendido(a). Se a pessoa vier com "não esperava que você, tão sensível, tão inteligente, fosse votar em sicrano ou beltrano que é um retrocesso para o Brasil" - geralmente o retrocesso é algum candidato rival do dele. Não desenvolva. Chantagem emocional só precisa de um microporo pra tomar o centro. Se estiver em sua casa, diga com toda a autoridade do mundo: "não quero saber de política em minha casa". Use um tom arrogante mesmo. Levante-se e faça qualquer coisa boba, como secar o cinzeiro ou encher as taças. Frise bem o "minha casa" - se a pessoa for de direita, entenderá logo o recado e sossegará o facho; se for de esquerda, ficará horrorizada com sua possessividade de classe média e perderá a voz (que bom!). Caso esteja na casa do molusco, tanto melhor: avise que você se lembrou agora de ter deixado uma panela no fogo e tem de ir correndo ver se não está pegando fogo. Ressalte que você já perdeu toda uma coleção de panelas tramontinas por causa desses deslizes da memória e saia correndo, sem sequer se despedir. Se estiver no shopping, diga que vai ter de passar na ChachaDumDum, ou na Lacoste, ou na Richards, ou qualquer porcaria equivalente, pois lá tem umas camisetas que eram de R$ 690,00 na semana passada e um grande amigo seu acaba de lhe avisar que estão por R$ 289,90, mas somente nessa semana! Faça cara de consumidor(a) desesperado(a) e nem dê tempo pro molusco rebater nada, lasque dois beijinhos no rosto (não venha com carioquismos de um beijinho-só nessa hora grave, pois não é o caso), frise que não pode perder essa promoção por tempo limitado e zummmm!, suma! Sente-se naquele café e tome um expresso pra recuperar as forças. Caso esteja no trabalho, diga que precisa resolver um problema urgente, pois nesse tempo de eleição ninguém está trabalhando direito e tem sobrado muito pra você. O molusco vai ficar sem jeito e você aproveita pra dar aquele amistoso "até mais".

4.4. Não responda às agressões. Os moluscos agressivos são estilo Luciana Genro, esquizofrênicos sem remédio. Não, não adianta mostrar o óbvio: que ela é uma filhinha de papai histriônica, a criatura te responderá que você é a elite branca heteronormativa, a classe média de extrema direita que quer sufocar os ventos da transformação no País - independentemente de sua cor, orientação sexual, política ou classe social. Vá por mim, é perda de tempo. Há algum tempo eu li que o silêncio é uma arma que irrita, dá raiva no outro, e preserva a imagem de quem o mantém. Corretíssimo, não? Faça vistas grossas e ouvidos moucos aos amigos que, não satisfeitos em colocarem no Facebook a cara ou o partido do candidato dele estampado, ainda cismam de criar grupos de apoio a esse político, inserindo você sem seu consentimento; ignore os que diariamente compartilham contigo notícias irritantes sobre aquilo que acham "fundamental" divulgar; não leia o status daqueles que confessam uma disposição intrínseca em excluir pessoas que estão apoiando os candidatos adversários aos dele. Não se envolva, deixe que exclua, afinal, que importância há numa relação onde se é mensurado por um voto numa porcaria de eleição como milhares de outras que ainda existirão?

4.5. Se houver um abuso em relação a sua pessoa nas redes sociais, através de inclusões de seu nome nas postagens diárias de militância, exclua silenciosamente seu nome de tudo. De vez em quando seja mauzinho e denuncie naquele programinha do Face que a postagem é Spam ou que a conta de seu "amigo" foi invadida ou, a melhor opção de todas, que é uma postagem que "não deveria estar no Face". Se isso não adiantar, peça, educadamente, inbox, que ele/ela retire seu nome das postagens e não inclua nas futuras. Não entre em detalhes do por quê. Diga que não é do seu interesse e pronto. Se ele/ela te bloquear, ótimo, compre um bom vinho ou um uísque, cachaça, cerveja, o que seja, e brinde sozinho: o Universo está agilizando as coisas pra você. Agradeça: há males hoje que evitam desgraças maiores amanhã.

4.6. Além de respirar fundo, sempre, se agarre ao que é eterno, ao que tem laços reais, à poesia, ao que nos liberta. O inferno são os outros - escreveu outro molusco chamado Sartre, ele, sobretudo, um serviçal de Cerberus a nos contaminar com sua falsidade vermelha. É, meu caro, minha cara, a vida é dura. Se não bastasse ter de lidar com nossas próprias sandices, temos de lidar com as insanidades do momento. O inferno não são os outros, porém, os moluscos - essa bendita sede de diversidade do Universo - misericórdia!


5. Uma proposta: vamos gargalhar? Hoje, amanhã, e depois. Sei que você, assim como eu, tem feito um esforço sobre-humano pra resistir aos males da vida. Sei que você, a cada minuto, precisa conter as garras que ameaçam irromper corpo afora e retalhar a cara desse bando de moluscos que insiste em nos chatear. Wolverine perde, é certo. Aquela boa mão na cara, velha e funcional, você pensa, você se coça, você delira em dar... Mas não, criatura, definitivamente, não, que modos são esses? Resista, pelo bem da ordem, recue e considere: sempre se pode gargalhar. Uma gargalhada vale mais que mil bofetadas, lembra?

segunda-feira, setembro 22, 2014

Dicionário Amoroso de Salvador, João Filho


É com muita alegria, e orgulho confesso de leitora e esposa, que convido todos vocês para o lançamento do Dicionário Amoroso de Salvador, de João Filho, dia 27/09, a partir das 18h, na Livraria Cultura, no Shopping Salvador.

O Dicionário Amoroso de Salvador integra o projeto da editora Casarão do Verbo que abrange, inicialmente, 12 capitais do País - aquelas que foram cenário dos jogos da Copa de 2014.

São chamados de Dicionários porque os temas entram em formato de verbetes, porém, se trata, na verdade, de crônicas amorosas, apimentadas, sensuais, satíricas, ácidas e poéticas acerca dessas 12 cidades.

Os olhares são pessoais, e as imagens que saltam nas páginas são frutos da relação complexa que cada indivíduo - neste caso, escritores, poetas, artistas - têm com a cidade onde nasceram e/ou escolheram para viver. O projeto é completado com ilustrações de artistas escolhidos a dedo, que dialogam muito bem com a linguagem literária. No caso de Salvador, as ilustrações são de Caius Marcellus.

Nos Dicionários, o singular se conecta perfeitamente com as percepções coletivas - em parte porque tudo faz parte do grande e infinito inconsciente coletivo e todo escritor nasce com uma anteninha grudada nele, em parte porque alguns verbetes se tornam rapidamente tradução de laços invisíveis que temos com nosso "lugar de cultura".

Nesse projeto, já foram publicados: os Dicionário Amoroso de Porto Alegre, de Altair Martins; Dicionário Amoroso de Recife, de Urariano Mota; e Dicionário Amoroso de Curitiba, de Márcio Santos. Agora é a vez de Salvador, que, modéstia à parte, está deliciosamente escrito por João Filho - não por acaso, meu poeta preferido!

quarta-feira, setembro 10, 2014

Amizades & amizades



1. Penso muito nos formatos, durações e sentidos das tantas amizades que fazemos ao longo da vida. Recentemente, tive um sonho muito esquisito, mais precisamente um pesadelo, em que me encontrava num lugar estilo fim de mundo e um fantasma vinha falar comigo. Ele me explicava algumas "regras" a respeito do que chamaríamos "vida após morte". Uma dessas regras me revoltava muito: quando mortos, dizia o nobre fantasma, perdemos todos os sentidos. De olhos abertos, me parece lógico, porém, lá no interior do sonho-pesadelo, aquilo me causava uma angústia enorme, seguida de grande indignação.

2. No meio da minha contenda com o fantasma - que tentava em vão me explicar por que não podemos ouvir, cheirar, saborear, tocar e ver, quando mortos -, percebi que, na verdade, eu o conhecia: era um grande amigo meu. Um amigo a quem muito amei e que morreu há cerca de dois anos.

3. De olhos abertos, me lembrei das primeiras e últimas conversas que tive com esse meu amigo. Poeta, professor, pai de cinco filhos, ex-bancário, ex-vendedor de discos, meu amigo era, acima de tudo, uma pessoa sincera e muito do Bem. Eu o conheci numa loja de discos, lá por volta de 1993, quando cheguei em Salvador, recém-divorciada e muito, mas muito deprê. Eu procurava um vinil do Duritti Column, não havia na loja onde ele trabalhava, todavia, ele disse que conseguiria o vinil pra mim. Estava feliz que eu gostasse de Vinni Reily, disse, sorrindo. E conseguiu. Em duas semanas, ele conseguiu não um, mas dois discos da banda de um homem só, que eu tanto procurava.

4. Seguiram-se muitos cafés em sua casa, na Mouraria, muitas trocas, tantas confissões, leituras de poemas (ele lia muito bem e recitava em público sem a menor cerimônia ou timidez), muitas invasões minhas em sua estante de livros - todos devolvidos, claro! - e uma amizade que nunca sofreu qualquer interferência das futuras escolhas dele (largar emprego, se meter com grupo de teatro, casar, ser pai novamente - ele já tinha 2 meninos quando o conheci - descasar, entrar em Letras na UFBA, abandonar Letras na UFBA, casar de novo, ir morar no interior da Bahia, ter mais 2 filhos, fazer Letras na UNEB, dar aulas no interior), nem nas minhas.

5. Não éramos grudentos, não passávamos horas ao telefone, e jamais deixamos de nos surpreender com o jeito do outro. Gostávamos de conversar e tínhamos muitas paixões em comum - Julio Cortázar, poesia, os filmes de Kieslowski, o já mencionado Durutti Column - mas não fazíamos dessas afinidades uma camisa de força. Nunca trepamos, mas dormimos juntos por duas vezes, na mesma cama, qual anjos que se esqueceram de seus próprios corpos. Eu confiava plenamente nele. Era como um irmão mais velho - ele era 10 anos mais velho que eu.

6. Gostava de seus "escritos poéticos", como ele mesmo costumava chamá-los. Ele me mandava e eu lia com prazer. Fazia comentários a meu modo: poucos, só quando achava que tinha algo a dizer. Mas gostava e continuo gostando de seus poemas. Não sei se ele gostava dos meus textos, pois nunca comentou sobre nenhum dos meus livros, embora fizesse questão de adquirir todos. Ele não comentava, eu não perguntava. Nos acostumamos a ser assim: naturalmente amigos, o que não fosse possível de dizer, fazer, ser, não seríamos, não faríamos, não diríamos.

7. Havia períodos em que ficávamos muito tempo sem nos ver, quando nos víamos, porém, era sempre uma alegria. Sem cobranças e sem chatices. Pode parecer clichê dizer isso, mas entre nós fluía uma amizade onde não havia espaço pra perda de tempo com bobagens. Fora as paixões em comum, no geral éramos muito diferentes um do outro e aceitamos isso. Quando frente a frente, eu queria saber como ele estava, ele queria saber o que eu andava fazendo. Às vezes, tínhamos muitas saudades e nos escrevíamos. Ou ele vinha a Salvador. Eu, por minha vez, andei a arranjar jeito de ir lá, em Coité.

8. Não me tornei amiga de nenhuma de suas mulheres, embora tenha conhecido algumas, as mais importantes, creio. Todavia, quando me casei de novo, ele imediatamente se tornou amigo do meu João. E isso ocorreu espontaneamente: João Filho gostou dele, ele gostou de João Filho.

9. Quase dois anos antes de morrer, meu amigo teve câncer de próstata. Se tratou no Hospital Português, aqui pertinho da minha casa. Saía da radioterapia e vinha nos visitar. Ficava um tempo, tomava um café, um suco. Depois, se ia. Às vezes, eu o questionava: por que não se hospeda aqui conosco, Zéo? Ele dizia: já estou acostumado lá (na casa de outro amigo). Isso me chateava momentaneamente, mas depois passava. Entravam conversas sobre poesia, música, cotidiano e eu esquecia.

10. Depois que Zéo morreu, tive vários sonhos com ele. Em geral, no sonho me esqueço que ele está morto. Quando acordo, lembro desse "detalhe" e me espanto com a dor que isso traz. Esse sonho do fantasma foi o único sonho distinto, os outros são todos iguais: eu acordo no meio da noite e me deparo com ele dentro da minha casa. Assustada, pergunto: que está fazendo aqui, Zéo? Ele raramente me responde. Às vezes, sorri. Me mostra coisas, papéis, desenhos, sei lá o quê - quando acordo não consigo lembrar com exatidão. No sonho, eu digo: o que houve? Você está com insônia? E ele rebate: não, Leila, eu não durmo mais. Acordo e quando acordada me lembro que ele morreu, então, vem a dor de novo. Outra e outra vez. Também o facebook está lá a lembrar que ele faz não sei quantos anos em abril. O perfil dele continua lá. Por isso, o facebook me avisa do seu aniversário, e eu primeiro me chateio, pra em seguida ficar triste.

11. Creio que minha amizade com Zé Luiz Franco foi um tipo de amizade rara: dessas que a gente não explica, não justifica, não precisa fazer esforço, nada, exceto vivê-la. E quando penso nas outras tantas amizades que também perdi - algumas não por morte, mas por desavenças, traições, decepções, ou tão somente por diluição -, vejo que há Amizades e amizades. Sim, a hierarquia, natural, fundamental, como não?

12. As Amizades com inicial maiúscula são tão naturalmente verdadeiras que qualquer coisa que falemos a respeito periga cair no clichê digno dos livros de Neimar de Barros (alguém ainda se lembra de Neimar de Barros, o Rubem Alves dos anos 80?) - é o caso de tudo que escrevi acima sobre Zéo: tudo é muito sincero, não nego, mas não adianta ser sincero, porque tudo dito/escrito resvala pro lugar-comum. E não é apenas a limitação da linguagem, incapaz de explicar a "naturalidade" ou grandeza de certas amizades, é, em verdade, a própria natureza-margarida dessas relações. Sabe margarida, aquela flor tão simples e tão viva, de pouco cheiro, pétalas tão brancas e miolo tão amarelo? Pois então, são amizades que parecem existir naturalmente, que chegam e se instalam. E mesmo quando por algum motivo maior vão embora, passeiam de madrugada pela casa: fantasma do Bem. Podemos dizer que são eternas, que têm sentido sempre renovado, que adquirem o formato de nossa própria alma. Clichês? Mas, claro! E dos bons! Tenho mais alguns grandes amigos(as) assim. Poucos, é verdade. Trata-se de uma dádiva que não enche os dedos de uma mão. Contudo, dou graças a Deus por eles/elas.

13. Há outras amizades que são na verdade grandes e/ou pequenos encontros pré-determinados. Isto é, têm um tempo de duração na nossa vida, têm um sentido, todavia, não são maiúsculas. Ficam conosco por um tempo, cumprem uma função que só a você cabe descobrir e apreender. Depois, se quebram qual porcelana ou morrem qual flor. Não teime em consertar esse troço partido! As marcas da colagem ficarão lá, o tempo inteiro, mostrando o quão frágil é esse ato de colar o que se partiu.

14. Já perdi muitas "amizades" assim. A vida costuma ser cruel com o minúsculo. Algumas eram estilo rosa: cheirosíssimas, belíssimas, mas não resistiram a um mísero vendaval. Já perdi também amizades orquídeas: exigem tanto de nós que um dia acordamos exauridos e mandamos ir... pro orquidário mais próximo. Também tive amizades flor de plástico, sabe? Mas diferentemente da música dos Titãs, essas morreram muito facilmente, até porque não eram amizades, eram relações sociais, saca "camaradagem"? Aqueles risos súbitos, aqueles comentários espertos, aquelas afinidades momentâneas, aquela solidariedade de ocasião? É sala de estar, porém, você, apressado ou deslumbrado, vai saber, insiste em levar pela mão, quer mostrar a casa toda, compartilhar o mais íntimo seu/dele/dela. Essas são as amizades minusculosas: quando acabam, e sempre acabam!, deixam um gosto podre na boca. Basta lembrar da criatura e você quer cuspir, quer escovar os dentes, quer tomar antiácido. Acha feio tal sentimento. Diz que já passou, não foi nada de mais. Rebobina, analisa friamente, vê que realmente não tinha nada a ver, no entanto, por que deixou crescer? Por que se enganaram assim? É uma sensação chata, tão chata e irracional que beira a idiotice.

15. Sabe de onde vem esse troço? Da alma enganada. Sim, Neimar de Barros diria: é a ressaca da alma enganada! Demora de passar. Amizade é coisa séria! Não troque as iniciais, não invente, não confunda, pois na próxima esquina, na próxima esquina... o que era mesmo que a peste do Neimar de Barros dizia??!!

16. Não, não me lembro o que ele escreveu. Tampouco tenho como conferir: o único livro que eu tinha desse autor ficou com uma ex-amiga, bela amiga flor de plástico, a quem eu nunca mais precisarei ver, com quem não preciso mais conviver. Trágico? Não, isso é na verdade "naturalmente" muito bom!

sábado, julho 26, 2014


1. Há um tipo de solidão que é pura vertigem: não passa pela razão, não tem motivos no cotidiano concreto dos afetos e relações, só tem, ao que parece, gatilhos; solidão que nada preenche nem faz entender. Você põe Cassandra Wilson, enche um copo de Buchanas, três pedras de gelo, tenta apenas dissolver a sensação. Ou piorar, por que não? Afinal, você é daqueles que Dr. Freud chamava masoquistas, não? Sure! Nada é tão ruim que não possa ficar pior! Mergulhar de vez e fazer valer o que o oráculo há séculos te previa: Escorpião, o mais obscuro dos signos.
2. O tema é: como aprofundar o corte ainda mais. Ou: como a faca pode ir além. Sim, sim, por que não? Ou: que mal há no fundo do fundo mais fundo profundo do abismo?
3. Deixe disso: o sábado é belíssimo e os passarinhos fazem seus barulhos, aos quais chamamos de "canto", nas três amendoeiras lá embaixo. O céu, azulíssimo, faz duvidar das chuvas de horas atrás.
4. Você leu há pouco dois contos magnificamente bem escritos do livro "Consternação", de Jadson Barros Neves. Lá, além de desamparo e miséria, havia tortura e apego a qualquer resto de sentido na vida. Você leu e pensou, ao final, o que se pode pensar: os contos absolutamente nada têm a ver com seu mundo, são curiosamente deslocados prum universo onde você jamais perambulou. Entretanto, a crueldade deles é tão intensa que torna o humano mais próximo, e, por que não dizer?, mais possível, mais belo. Belo? Sim, a beleza magra dos cachorros abandonados. Essa gente que ninguém olha, ninguém vê - é disso que fala "Consternação".
5. Começa o Radiohead a cantar "Creep", talvez a tradução mais perfeita do que você, secretamente, sente. E você engole o resto do uísque cantarolando: "But I'm creep, I'm weirdo/what the hell am I doing here?" Sim, meu bem, o quê? Essa é a pergunta que ecoa no Cosmos, que atravessa os séculos, que cala todas as crenças e descrenças.
5. Seu amor está em Mutuípe. Sul da Bahia. A trabalho. Mutuípe, você pensa, que nome estranho de se pronunciar, indígena, é óbvio, também é zona do cacau? Também é área de descobrimento? Perguntas tolas num sábado de sol fraco.

domingo, junho 15, 2014

Mais uma da Carochinha



Conto da Carochinha para adultos que bateram demais a cabeça na infância (quedas bruscas, descuidados maternos, brigas com coleguinhas) e hoje apresentam problemas de raciocínio, porém, não sabem disso:

1. Era uma vez um lindo país varonil onde seus governantes resolveram beneficiar em 100% a indústria automobilística, aumentar consideravelmente o lucro dos banqueiros e dos demais grandes empresários, sob a desculpa de estarem melhorando a economia da nação. O mundo estava em crise? Sem problemas, carros e eletrodomésticos da linha branca para todos. Eba!!!, gritou o povo, feliz por ser governado por gente tão inteligente, cujo ministro acabava de descobrir que o problema da economia é o consumo.
2. Esse mesmo governo se orgulhava de fazer caridade com o chapéu da classe assalariada, distribuindo um negócio fantástico chamado bolsa família: ajuda os pobres, injeta dinheiro na economia de muitas cidadezinhas, garante os votos por mais umas cinco ou seis eleições, e, o melhor!, não precisa tirar um centavo "dos seus pares", pois basta aumentar os impostos de uma gente abominável chamada "classe média". Essa gente chata e esquizofrênica não tem muito como sonegar impostos, morre de medo da Receita Federal, e é tão estúpida que fala mal de si mesma, portanto, pode ser facilmente calada com meia dúzia de artigos em jornais estratégicos que a chamarão de preconceituosa e elitista, caso reclame ou seja contra o bolsa família (verdadeiro amparo para os pobres e desvalidos do país).
3. Mas ainda era pouco! Não satisfeito com essa belíssima transformação de valores e lógica, esse governo trouxe a Copa do Mundo pra nosso país varonil. Mais uma vez, a despeito de promover uma paixão nacional - o futebol - aproveitou para beneficiar seus "parceiros" em licitações desonestas, tornando lugar comum o desvio do dinheiro público, em detrimento do quase nenhum investimento na saúde e educação pública. Ocorreram alguns protestos, é claro, nem só de classe média esquizo vive o país varonil, mas nada grave, nada definitivo, nada que mudasse o curso dos rios$$$!
4. Todavia, eis que uma coisa esquisita aconteceu: na abertura oficial da Copa, esse governo é vaiado e xingado em pleno estádio e debaixo dos olhos do mundo inteiro. Pânico! Revolta! Indignação! Como explicar? Os deuses enlouqueceram? Sim, desde a Grécia já não eram muito confiáveis, vide Homero. Agora então, perderam a medida! Pobre governo, cujo líder é uma mulher! Tem passado por muitas provações essa pobre governante. Há alguns meses, viu a cúpula de seu partido ser perseguida pela mídia elitista, pelos classe média coxinhas e por um inimigo indestrutível chamado Joaquim Barbosa. De punho em riste e gritando palavras de ordem, essa presidente viu seus colegas (totalmente inocentes) da alta cúpula do partido serem presos por pura perseguição política, e isso, reparem!, num país aparentemente democrático. Será possível? Sim, um horror! Era o fim da democracia, a volta à ditadura! A pobre presidente nada pôde fazer. Aumentou alguns quilos, é verdade, mas seguiu em frente. Porém, essa nova injustiça é difícil de aguentar, afinal, as vaias e xingamentos grosseiros foram movidos por puro preconceito! E por machismo, é claro. Que fazer diante de um fardo tão duro? A quem culpar?
5. Por algumas horas, o país mergulhou em trevas, enquanto a seleção brasileira vencia por 3 X 1! Mas na manhã seguinte, glória das glórias, surgiram os carochinhas. Criativos e imbatíveis, inventaram "a verdadeira narrativa":
a) as vaias e xingamentos foram oriundos de uma elite branca que não aceita qualquer tentativa de igualdade no país;
b) a presidente é uma vítima, nada fez pra merecer tal desrespeito.
Aplausos! Adesões! Bloqueios no Face! Retuitamentos a mil! Editoriais nas revistas aliadas! Solidariedade de inocentes!
Pronto, passou. Foi só um susto.
6. Banqueiros, indústria automobilística e empresários financiadores da campanha do atual governo, vocês que são de fato a elite do país, durmam tranquilos. Mais uma vez, nada respingará por aí. A culpa é da elite branca. Não essa que está de fato e de ato no poder, não essa beneficiadíssima e que nada tem contra os governantes, o bolsa família, a Copa (muito pelo contrário!), mas aquela outra, a classe branca média invisível, essa entidade inimiga, assalariada, esquizo, que agora, vejam só!, repete nas redes sociais sua indignação contra o comportamento grosseiro... de quem? Dela mesma? Exato. Dela mesma.
7. E aí, você entendeu alguma coisa, criança?
8. Nem eu!

sábado, junho 07, 2014

Carochinhas Varonis



1. De uns tempos pra cá, tenho me lembrando muito das histórias da carochinha que eu ouvia quando criança. Basta entrar no facebook ou folhear algum jornal ou revista: vemos pipocar aqui e ali textos "aparentemente inteligentes" e "independentes" acerca de problemas nacionais. São as carochinhas do Brasil varonil. As autorias são variadas, porém, os textos que chamam mais a atenção vêm de rubricas que revelam alguma figura consagrada pela opinião pública - "intelectual", "jornalista", "artista" ou "escritor". Os argumentos trazem um raciocínio "brilhante" aos olhos dos leitores pouco analíticos e de tendência a se impressionar. Sabe aquelas bobagens que soam grandiosas quando estamos num bar sob o efeito da terceira ou quinta dose de Red Labbel? Sim, pode ser de Ice, depende do que você prefere, gatinha. Com uísque você cai? Então, vá de Ice!

2. Cinco doses de Red Label ou Ice e você também achará brilhante que uma figura tente defender a Copa no Brasil com argumentos fantásticos de que:
a) na Inglaterra, durante as Olimpíadas, também houve desorganização, e ninguém condenou o governo inglês, nem ninguém (pasme!) falou mal da Inglaterra. Ora, se os ingleses não falam mal da Inglaterra, como então nós, brasileiros, podemos falar mal do Brasil, gente?!?! Essa carochinha é boa: na pedagogia antiga, puxaria nossa orelha, nada de falar mal do país, comportem-se!
b) nós, brasileiros, gostamos de falar mal daqui, sem conhecimento do que ocorre nos outros lugares, de forma burra, antipatriótica e automática, é uma pena. Essa carochinha é mais elaborada, culta, viaja, conhece o mundo e diversas culturas, como podemos nos contrapor a ela se mal conhecemos a Argentina?
c) temos, sim, condições de fazer um grande espetáculo e surpreender o mundo, mostrando que nosso país é civilizado e sabe organizar um mundial. Opa! Carochinha positiva! É tipo nosso professor de musculação: não pare, vamos, você consegue, força, vai dar certo, o petróleo é nosso, todos juntos vamos, pra frente Brasil, salve a seleção! Acho que essa está atualmente em algum cargo ou projeto do PT, mas com certeza é neta de Médici, pessoal, a origem não nega.
d) os desvios do dinheiro público existiram desde que o Brasil foi fundado e não são justificativas pra sermos contra a Copa. Rapaz, que carochinha é essa? Está cansada? Sim, conformadíssima, quer nos ensinar a resignação, a corrupção já existia antes de ti, meu filho, se aquiete, você não vai mudar o mundo agora, na véspera da Copa, entendeu?

3. Outra carochinha ótima é a que resolveu colocar todas as consequências das manifestações públicas, surgidas nas cidades brasileiras do ano passado pra cá, na conta da mídia. Sim, porque não há problema nenhum nas manifestações. Esqueçamos que o fenômeno calou esquerda, centro e direita, deixou a gente sem teorias ou explicações, nos fez ficar boquiabertos com o caráter esquizofrênico dessas manifestações. Nada disso importa! O que importa, sublinha a carochinha, é que a mídia no Brasil é de direita e está contra os blacks blocks - meninos pobres imbuídos de uma verdadeira vontade de mudar o país. Essa mídia inventou a violência e o vandalismo das manifestações. A mídia, a verdadeira inimiga da nação, já havia inventado o mensalão do PT e "escondido" o do PSDB, já havia eleito Joaquim Barbosa como o grande defensor da nação. Por isso, agora essa mesma mídia está a inventar os vândalos, um termo que discrimina os pobres revolucionários que quebram agências bancárias, supermercados e lojas de surf em Ipanema! Vejam só: lojas de surf em Ipanema merecem piedade ou respeito da gente? Claro que não! Merecem ser quebradas, ninguém trabalha nelas, ninguém depende delas pra sobreviver, quem compra em lojas de surf são pessoas inúteis, americanizadas, capitalistas, que, ainda por cima, surfam!!!

4. Uma carochinha com grande conhecimento histórico chega a uma analogia maravilhosa: por que chamar os blacks blocks de assassinos, se até agora eles só mataram mesmo um câmara-man, enquanto o presidente dos EUA, que jogou uma bomba em Hiroshima, mesmo com a guerra ganha e o Japão não oferecendo mais nenhum perigo, não foi chamado de assassino? Assassinar é questão de quantidade, meus caros, anotaram? E também de motivo: o presidente dos EUA não tinha mais nenhum motivo pra jogar bomba no Japão, enquanto os blacks blacks estão defendendo a nação. E nesse projeto coletivo tudo é válido. O que essa carochinha está nos dizendo é que não devemos nos incomodar em ter nosso pai, mãe, filho, amigo, vizinho assassinado, há uma causa maior que nossa dor individual, percebem?

5. Há também as carochinhas que jogam a culpa de todo e qualquer problema do país na classe média. Inventaram até o termo classe média coxinha, a fim de ser mais implacável com o inimigo. É brilhante. Todas as carochinhas passaram a dormir felizes, sentem-se livres porque não fazem parte dessa entidade invisível: a classe média coxinha - nessa e na mídia de extrema direita recai a culpa de todas as mazelas do nosso país.

6. Fico me perguntando por que as carochinhas não comentam que, na prática, não existe problema nenhum entre governo, empresários e black blocks: todas as agências depredadas podem requerer do seguro o ressarcimento dos prejuízos ou podem repassar o prejuízo pros clientes, sejam esses clientes a favor ou não dos black blocks, sejam ricos, classe média coxinha ou não. As carochinhas "livres" não nos dizem o óbvio: que os governos estaduais, municipais e o federal estão a aproveitar a ação dos "vândalos" pra refazer os pontos de ônibus, os postos policiais e demais patrimônios depredados através de contrato sem licitação, por causa do caráter emergencial da situação. Neste caso, os blacks blocks são uma bênção. Todos desviam ainda mais o dinheiro público e agora sem a ameaça das investigações da Polícia Federal e Tribunal de Contas da União. Os carochinhas não dizem que os comerciantes que têm seguro contra situações de calamidade ou insegurança nacional também não têm do que reclamar dos blacks blocks. Não dizem que os comerciantes não-coxinhas, ou seja, os comerciantes... banana-real? Os comerciantes pastéis? Os comerciantes pão com ovo? Enfim, aqueles que não têm seguro e vivem do que vendem diariamente, que tiveram seus salões, lojas, mercadinhos destruídos, não precisam chorar: podem pedir ajuda à população, inclusive pelo facebook, podem fazer bingo, rifa, correntes, o Brasil é grande e todos ajudarão.

7. Não há nenhum problema com os blacks blocks, nos ensinam as carochinhas que conhecem profundamente a história brasileira: estão fazendo em menor número aquilo que os empresários e governantes fizeram, a saber, depredando o patrimônio público. Assim como o PT não está roubando, mas fazendo aquilo que o PDSB fez antes e ainda faz em alguns estados, e o PSDB por sua fez fez aquilo que o PMDB faz há muito tempo, que por sua vez só fez aquilo que o antigo PFL fazia, que por sua vez... Não se pode condenar um grupo de pessoas que está fazendo aquilo que os empresários e governantes fizeram, gente, anotaram? Errado é o presidente dos EUA, claro, aquilo, sim, é assassinato. E assim vamos longe: errados são os empresários... coxinhas também? Ou caviar?

8. E eu que pensava que nunca mais iria ouvir as carochinhas... Caramba, elas não têm limites mesmo!

sexta-feira, maio 16, 2014

Entrevista com o poeta João Filho

Entrevista com o poeta João Filho
IN: LITERATURA|POESIA
16 mai 2014



João Filho é poeta. E está lançando seu novo livro, “A Dimensão Necessária” (Editora Mondrongo, Bahia, 2014). Sou suspeito para falar de João, pois ele tem sido de uma generosidade ímpar para comigo. Quem diz que não se faz amigos pelo facebook está enganado. Eu e João nos conhecemos e vamos assim contruindo uma amizade. Na verdade, gostaríamaos de nos encontrar e tomar um café ou uma cerveja juntos, conversar sobre literatura, filosofia, música, jogar conversa fora. Mas Salvador é bem longe de Cantagalo. Por isso nos falamos por aqui. E dividimos a conversa com vocês.
Não me sinto capaz de falar da poesia de João. Mas ela é sublime. Há dias carrego comigo meu exemplar de “A Dimensão Necessária” – na minha mochila, na garupa de minha bicleta, no bolso de meu casaco. O talento de João é admirável. Estou há dias degustando ”Nitidez submersa”, o primeiro poema de “A dimensão necessária”, que é de uma beleza indizível.
E, não por coincidência, João cita na entrevista, os versos que me intrigam, me espantam, e, digamos assim, me fazem rezar:

“nas grafias do diáfano,
se entrevê pela fuligem
a clara sustentação
dos fios frágeis do mundo.”

Aqui você não vai encontrar nenhum resenhista ou crítico puxando o saco do autor para vender livros (embora eu torça para que João se transforme num best seller), nem nenhuma análise profunda de poesia. São dois amigos conversando. Deixemos João falar. A poesia é dele.

- Poesia não é somente escolha, é vocação em primeiro lugar. Concorda? Quando você descobriu que era poeta?

JOÃO FILHO: Concordo. Convivo com a poesia desde menino. Poesia não apenas no sentido de palavras no papel, mas também esse “espanto” de estar vivo, que me acompanha. A vida, para mim, é esse susto de ser. E uma sensibilidade, às vezes excessiva, para as coisas belas. Assim, de algum modo, eu sempre soube que escreveria. Comecei aos 13 anos. Nessa caminhada, claro, tive dúvidas terríveis quanto ao fato de se deveria ou não continuar escrevendo. Houve momentos, digamos, de quase desistência. Desse modo, não houve um momento específico, mas lampejos ao longo do trajeto, até formarem um mosaico de confirmação. Na minha trajetória errática, a poesia sempre foi meu norte magnético. Deus colocou a poesia como um Anjo da Guarda em minha vida. Não tenho orgulho algum dos precipícios que passei. Os erros e quedas foram por minha conta.

- Adélia Prado diz que a poesia, mesmo nos ateus, emerge do mesmo lugar de onde brota a religião. A poesia e a mística têm a mesma raiz? Como sua poesia dialoga com o transcendente?

JOÃO FILHO: Confesso que não sei se a mística e a religião brotam da mesma raiz. Por sinal, é um bom tema para estudo. O que escrevo em forma de poesia é a busca pelo transcendente, partindo sempre da experiência diária. O melhor resumo que posso oferecer dessa conversa com a verticalidade é o verso de Antonio Machado: “quien habla solo espera hablar a Dios un día.” Sou um contemplativo. Tudo que escrevo implica uma tentativa de diálogo com “a clara sustentação/dos fios frágeis do mundo.” A vida, para mim, tem sido rica nesse sentido. Juntamente com o domínio técnico, poesia é contemplação e espera paciente.

- A influência é uma maldição ou um mal necessário? Você teve que lutar muito para se libertar de suas influências? Que poetas te inspiram?

JOÃO FILHO: A influência é uma bênção. Benditos sejam os poetas que vieram primeiro. Angustiado mesmo devia ser Homero, pois não havianinguém antes dele. Brincadeiras à parte, lutei e luto muito, mas sem angústia; as confluências (como as chamava Mario Quintana) estão sempre lá. E poesia, não esquecer, é sempre tentativa. Não sofro esses temores bobos de não me deixar impregnar por outro poeta. Mesmo dos que estão escrevendo agora. Fico feliz por encontrar poetas que realizaram verdadeiros achados expressivos. Não se encontra aí aquela luz quase oculta que um poeta tenta transmitir ao leitor? Quando encontro isso, eu agradeço. Leio muita poesia. Tenho fases: revisito alguns poetas, retomo outros, mas há aqueles que não largo. Camões (o pai de todos), Gil Vicente (imenso poeta que se mostra em suas peças), Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade, Jorge de Lima, Antonio Machado, Bruno Tolentino, Alphonsus de Guimaraens pai e filho, Orides Fontela, W. H. Auden, Alberto da Cunha Melo, Jaci Bezerra, Alberto da Costa e Silva, Saint-John Perse de Amers, Mario Quintana, Paul Claudel de Cinq grandes odes, Leonardo Fróes de Chinês com sono, Paulo Henriques Britto, Jorge Luis Borges, Miguel d’Ors e uma plêiade de poetas que escrevem em espanhol por quem sou apaixonado. Argentinos: o já citado Borges, Alejandro Nicotra, Rodolfo Godino, J. L. Ortiz, Antonio Porchia, Horacio Castillo, Ricardo H. Herrera, Pablo Anadón, Roberto Juarroz. Espanhóis: o citado Miguel d’Ors, Juan Ramón Jimenez, Jorge Guillén, Pedro Salinas, José Antonio Muñoz Rojas, Tomás Segovia, José Jiménez Lozano, Enrique García-Máiquez, José Mateos. Sem esquecer a galega Rosalía de Castro, o peruano José Watanabe, o chileno Jorge Teillier. Para mencionar alguns.

- “Eu passei toda a minha juventude escrevendo vagarosamente com revisões e especulações intermináveis, deletando, e então percebi que estava escrevendo uma frase por dia, e essa frase não tinha sentimento. Maldição! Sentimento é o que eu gosto na arte, e não artifícios na camuflagem de sentimentos.” (Jack Kerouac)
Vê-se uma nova geração de poetas, marcados pela influência de Bruno Tolentino e pelos ensinamentos do professor Olavo de Carvalho, um apreço pela técnica. Você se sente parte desta geração (se é que esta geração existe)? A técnica engessa a “emoção”, o “sentimento”, ou Kerouac estava redondamente enganado?

JOÃO FILHO: Se a geração existir, será uma honra pertencer a ela. A poesia de Bruno Tolentino é um manancial onde dessedento algumas sedes, e o livro que publiquei recentemente A dimensão necessária tem como primeira epígrafe um trecho em prosa do poeta de As horas de Katharina. Mais confluência impossível. Ao Olavo de Carvalho não tenho palavras para agradecer o imenso bem que sua obra como um todo, me ajudou e ajuda. Meu amigo Person Ramos Araújo me apresentou o trabalho do filósofo em 2003. De lá para cá, sou um leitor fiel, e tento, dentro das minhas possibilidades, estudar a contento. Olavo de Carvalho salvou minha vida cognitiva e espiritual. Minha dívida é imensa.
Kerouac estava totalmente enganado. A técnica jamais engessa a emoção. Forma é liberdade, tanto nos fenômenos da vida quanto da arte. Quanto mais a técnica for dominada tanto mais o poeta poderá voar livremente. No entanto, é preciso notar que a técnica é apenas um meio, não um fim.

- Como foi a construção de “A dimensão necessária”? Como você reuniu os poemas? Quando viu que já tinha nas mãos um livro pronto?

JOÃO FILHO: Comecei a escrevê-lo em 2006, mas ele passou por inúmeras mudanças, do título à estrutura até alcançar sua forma final; porém alguns poemas ficaram como que formando um núcleo. Avancei desse ponto. Os temas foram vividos e a inquietação da forma (o como dizer dentro de um ritmo), que é uma constante para mim, foi tentando se plasmar. O livro está dividido em seis seções (Luz alheia, A fonte vertical, Sonoite, Habitação de nuvens, Voo sem pouso e Pequenos tesouros portáteis). Lentamente, do enorme material que eu havia escrito para cada uma, muitos poemas foram sendo postos de lado. (O que me ajudou e ajuda é a conversa franca com os meus três únicos leitores: meus amigos e poetas Claudio Sousa Pereira e Wladimir Saldanha e minha mulher toda música e escritora Állex Leilla. Sem eles, A dimensão necessária teria sido outro livro.) Tentei publicá-lo, mas, por razões que não vêm ao caso, não consegui. E isso foi ótimo, o livro não estava pronto ainda. No final de 2013, percebi que o conjunto havia se cristalizado numa forma da qual eu não me arrependeria em publicar. Coincidentemente o convite de Gustavo Felicíssimo, poeta e editor da Mondrongo, veio na hora certa.



In: O Camponês, de Sérgio de Souza
Link: http://www.ocampones.com/?p=11654

terça-feira, maio 13, 2014



- Então parou de chover, mas o vento continua. Fortíssimo. Um gato persegue um mico, e esse sobe feito raio na árvore. E o gato não sobe atrás? Não, não sobe, fica embaixo, olhando o outro. Que estranho, não? Sequer sabia eu que gatos corriam atrás de micos. E há tantos, há muitos, há milhares no campus da UEFS.

- É preciso dar parecer num texto fruto de uma pesquisa em que se discute a imprecisão dos conceitos gramaticais e sua utilização na sala de aula. Quer o autor nos fazer crer que é esse um dos motivos do baixo aprendizado do português padrão no nosso país. São hordas de jovens que mal sabem redigir um parágrafo, hordas de portadores de diploma. E seria a imprecisão dos conceitos de sujeito, predicado, adjunto... seria essa uma das razões pra se passar anos numa escola e de lá sair sem sequer saber ler e escrever? Então temos um país que não sabe ler nem escrever por que não lhe foi ensinado corretamente os termos da oração? Será que nossos avôs sabiam disso? Ligar pra meu avô, lá em Bom Jesus da Lapa, e perguntar. Ou ligar pra meu pai, que escreve sem erro algum e só fez o "curso técnico de contabilidade" - ainda existe?

- Que tristeza isso de avaliar o que não é passível de ser avaliado. Que tristeza isso de se pesquisar o que não carece de ser pesquisado. E tudo piora porque lá fora há vento, lá as árvores estão verdíssimas, lá fora há gatos correndo atrás de micos, lá fora uma tarde se espalha e eu não posso me avarandar com ela, ao contrário, tenho de me encolher cada vez mais.

- Mas então uma mágica: resolvo que há um intervalo. Não sei bem de quê, porém, se acabo de resolver sua existência, é por que ele há, correto? Sim, ele há, do verbo haver, assim como em outras línguas ele chove e ela anoitece, agora, de repente, mesmo no sentido de existir, aconteceu isso de o verbo haver ter sujeito. Que se vai fazer? A língua portuguesa é assim - insuportável. E sendo assim, nesse intervalo ora inventado, eu mereço um café, bem como mereço desanuviar os olhos do mundo dos textos tortos, dos textos que já nascem mortos (pé de pato, mangalô).

- Tiro da pasta um texto de Vargas Llosa, deixado na minha mão pela Moira Flávia, e leio. Isso é desanuviar não apenas os olhos, mas a alma. Café e Vargas Llosa. Pra que mais? Chama-se Carta a um jovem escritor e, à maneira de Rainer Maria Rilke, que em sua Carta a um jovem poeta define o estranho ofício de se entregar à poesia, Vargas Llosa define a rebeldia, a inadequação ou, melhor ainda, a difícil tarefa do escritor de conviver, eternamente, com uma solitária no estômago. Imagem nojenta, é verdade, mas tão verdadeira!

terça-feira, maio 06, 2014

Resenha sobre "Chuva Secreta", Jornal Rascunho, abril de 2014



A metáfora da chuva

A linguagem é a mais forte marca da prosa de Állex Leilla, com uma precisão milimétrica no uso de cada expressão

Desde o realismo social de Dalcídio Jurandir em Chove nos campos de Cachoeira até o surrealismo alegórico de Campos de Carvalho em A chuva imóvel, o fenômeno natural sempre nos aparece como sinônimo, ou melhor, metáfora de opressão. O tempo sem sol, o céu pesado, a chuva longa surgem bonitos e esperançosos em Graciliano Ramos, no capítulo Inverno de Vidas secas, em que o som de trovões vindo do rio e o cantar dos sapos acalentam os personagem. No entanto, mesmo aí, há uma mancha de mágoa. Fabiano movido pela alegria da invernia até ensaia contar uma história enquanto Sinhá Vitória, precavida, cuida dos filhos sabendo que a bonança tem dono, e não são eles.

Enfim tudo termina por se voltar ao parágrafo final do romance de Campos de Carvalho numa espécie de sentença fatal do destino: “Mesmo morto continuarei dando meu testemunho de morto. Esta chuva imóvel serei eu que estarei cuspindo”.

Todas estas metáforas pluviosas espalham-se pelos nove contos de Chuva secreta, novo livro de Állex Leilla. No entanto, aviso aos navegantes, não adianta buscá-las desesperadamente. Tudo na prosa desta baiana é sutil, se reveste de uma seda fina, vai se dizendo, se revelando aos poucos, com parcimônia e no final surpreende, esmurra o leitor. Lembra Julio Cortázar e sua visão de literatura. Para o argentino, escrever era lutar boxe. No romance se vence o leitor por pontos; no conto, por nocaute. Aliás, Cortázar é o escritor que fascina as personagens apaixonadas do conto Conexo. Sob uma fina chuva nas serras mineiras, duas mulheres vivem um amor molhado e doce.

Abrir languidamente as portas de nossos mundos, aderindo-nos às novas substâncias — ácidas, alcalinas, apimentadas, amargas — e delas absorver cores, cheiros, sabores.


Állex nos nocauteia em cada novo round, ou melhor, conto. A própria expressão “chuva secreta” somente surge no texto final, Epiceno, já algo em si ambíguo.

Parto, mas deixarei programado um vento amanhecido e uma chuva secreta, porque brilhante e inconcebível.

E assim segue o texto que conta de um amor possessivo, idílico, onde a delicadeza às vezes perde as amarras, deságua na brutalidade e se envolve em linguagem, um mecanismo eficiente para superar misérias e desesperanças.
E a linguagem é a mais forte marca da escritora. Há algo de poético, sim, mas, sobretudo, existe uma precisão milimétrica no uso de cada expressão. Há muita suavidade, mesmo quando descreve as mais intensas tragédias humanas. Os filhos que simplesmente tiram todos os bens da mãe, escudados num estranho senso de justiça. Uma delicadeza até quando sente a necessidade de jogar com palavrões:

E no cuzinho não vai nada?, ironizaria você, se aqui estivesse/ chegasse de repente/ instantâneo/ mágico com aquele teu cheiro espinhento de barba malfeita.


O amor, a falta dele e as relações humanas são os temas de eleição da escritora. Todas as formas de amar são trabalhadas em todas as suas intensidades, não falta nada, sequer as inseguranças e os desesperos trazidos pelo inevitável encontro das pessoas. Do filho penalizado e carregado pela culpa das desgraças da mãe, ao poeta marginal morto de paixão pelo pintor cego, os personagens estão sempre na delicada corda bamba de se envolverem com seus quase opostos, e aí tudo segue ao sabor da inventividade da autora. Ora facilita a vida de seus viventes, dando-lhes felicidades possíveis, ou não, simplesmente os joga em abismos profundíssimos. Mas assim é mesmo a vida, e é nela que Állex Leilla busca seu fôlego.

Este realismo contemporâneo termina por criar personagens também plausíveis, embora naturalmente contraditórios. Sem perder pontos de delicadeza, essa gente se marca por torturas, separações e mortes. Aliás, há nestes contos certo fascínio pela morte. Não que se banhem de tragédias, apenas vai dando espaços para todas as partes fundamentais da vida e aí a morte surge como acontecimento natural, mesmo quando não se abre mão de toda carga de dor e impotência que ela lega a quem sobrevive.
Uma curiosidade sobre a ambientação dos textos. Ela, a ambientação, praticamente não se repete e cada conto se passa num espaço próprio. Maceió, São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso, os personagens vagueiam por quase todo o país. Naturalmente que a escritora não teve a intenção, mas terminou por brincar com um dos mais chatos e inócuos debates da atualidade, aquele que tenta insistentemente fundamentar uma espécie de neorregionalismo. A rigor nunca houve de fato uma literatura regional, mas literaturas que se ocuparam de espaços, localidades onde o homem se movimenta respeitando ou rompendo com as particularidades do ambiente. E tal fato, antes de ser característica de uma região, é uma condicionante da natureza humana.

Enfim, Állex Leilla é uma escritora que rompe com amarras teóricas infundadas para criar uma obra própria, forte e marcante. Isso faz dela, não somente uma das maiores vozes de sua época, mas indiscutivelmente uma das mais seguras e conscientes escritoras da literatura brasileira.

MAURÍCIO MELO JÚNIOR

O autor
ÁLLEX LEILLA


Nasceu em 1971, em Bom Jesus da Lapa (BA). Publicou Urbanos (contos, 1997), Obscuros (contos, 1999), Henrique (romance, 2001), O sol que a chuva apagou (novela, 2009) e Primavera nos ossos (romance, 2010). Em 2010, venceu o concurso de contos Luiz Vilela e foi selecionada para a antologia alemã Wir Sir Bereit.

TRECHO
O ser humano não se repete. Somos banais e desimportantes, ainda que cada um se considere, em segredo, portador de uma misteriosa missão, protagonista de um destino ímpar. Não é verdade. Nossa trivialidade é inata. Contudo, por baixo da ordinariedade, somos, paradoxalmente, irrepetíveis, cada qual um molde perdido, cada qual um calo específico, doendo na infinitude.



Casarão do Verbo
158 págs.

domingo, maio 04, 2014

Domingo ouvindo o Rei e bebendo TODAS. Acaba o Jack Daniels, mas o ser humano não quer saber de pausa. Até Bacardi com Licor de Menta rola... Quando começa "A distância", penso naquela clássica cena: abrir os pulsos com gilete numa banheira cheia de sais de jasmim, o sol entrando pelo vidro empoeirado da janela baterá direto no copo de uísque pela metade. É meu sonho antigo!
Mas então me lembro:
a) meu poeta preferido está na varanda, e me espera sorrindo;
b) não tenho mais 27 anos (idade limite pro suicídio);
c) não me despedi das busças, como morrer então?

sábado, maio 03, 2014
















O áspero poema? Não mais quero.
O inviável abismo? Já descri.
Foi com inabalável esmero
que duramente me persegui.

Se tudo é insuficiente, espero.
O instante vence o tédio, senti.
Se a valsa mudou-se em bolero,
o ritmo pouco importa, vivi.

Pelo tropeço suavizei o passo.
Seu corpo é o sentido que devasso
devagar, como quem respira.

Gota que se equilibra suspensa -
a vida. Mínima que é imensa,
quando pensa que é real, delira.

In_ JOÃO FILHO. A dimensão necessária. Itabuna: Mondrongo, 2014.
À venda

Livraria Cultura:
http://pesquisa.livrariacultura.com.br/busca.php?q=a+dimens%C3%A3o+necess%C3%A1ria+jo%C3%A3o+filho

Loja Singular:
http://www.lojasingular.com.br/literatura-brasileira/a-dimens-o-necessaria_9788565170451.html

Livraria Hora de Leitura:
http://www.livrariahoradeleitura.com.br/

Paulistânias II

1 Você deve esquecer que dormiu mal, que dorme mal há semanas, desde que se mudou pra cá. Esse negócio de deixar o negativo de lado (qui...