quarta-feira, dezembro 27, 2006

Pedaços

Ele havia mencionado que "o tempo fechou" em sua casa, depois falaria sobre isso. Não falou porra nenhuma e simplesmente sumiu. Cinco dias sem notícia.

Ela ficou preocupada. Escreveu perguntando se estava tudo bem por lá. "Por aqui, o tempo fechou também", ela brincou no email, mas em termos de clima, "está chovendo desde domingo". E acrescentou, de puro charme: "Mas é normal, já reparei que todo ano, onde quer que eu esteja, sempre chove nos dias 21 e 22 de novembro".

Isso era verdade, não charme. Não pergunte porquê nem diga que é coincidência.
Sempre chove no aniversário de André Gide, e um dia antes dele.
Isto porque Gide abre Sagitário, enquanto ela encerra Escorpião.

Sempre lhe acontece também: uma crise de coluna que, inexplicavelmente, termina em vômito. Também não pergunte porquê. Vai que ela está ainda ligada à Terra - que coisa lenta, não? - e precisa de purificação.

Já está tão acostumada com a dor de coluna dia 21 de novembro que cansou de comentá-la. Aliás, nem comentava mais da chuva. De repente, comentou com ele por distração.

Deitou achando que podia haver uma mudança, mudança tão significativa que a transformaria naquelas pessoas elegantes que jamais reclamam nem contam seus problemas pros outros, suportam tudo com um sorriso nos lábios.

Acordou e percebeu: nunca ocorre a mudança. As pessoas elegantes continuam a povoar a mente, distantes, acenando, do outro lado da pista.

O dia todo apenas aquilo: nenhuma notícia dele, a chuva e a dor de coluna.
Tomou um cataflan.
Depois vomitou.
No fim do dia a dor passava, assim como o mal-estar e a chuva.

Mandou outro email. Nenhuma resposta.

Dormiu e sonhou com uma coisa engraçada: ele, com aquela sua mania de listas, propôs uma lista das 10 coisas que mais a afastavam de seu cantor preferido e as 10 que mais a aproximvam dele. No sonho, ela não levava a sério, dava gargalhadas, fazia a lista e achava tudo absurdo.

Acredita que as coisas vão ficando na cabeça acumuladas e depois viram sonhos por ordem de entrada.
O mais estranho é que na lista das 10 coisas que a afastavam Dele estava:
a) Ele não gosta de sexo;
b) Ele é excessivamente europeu;
c) Ele dá declarações irresponsáveis, às vezes.

Na lista das coisas que a aproximavam, estavam:
a) Ele não gosta de sexo;
b) Ele é excessivamente europeu;
c) Ele dá declarações irresponsáveis, às vezes.

Achou graça: então, tudo que aproximava Dele também a afastava?

Pensou em gravar um cd com suas músicas preferidas para um dia de chuva. Ele iria aprovar a idéia. Mas, olhando pela janela, veio o envelhecimento: parou de chover. A dor de coluna voltava. E não havia um email dele na caixa.

terça-feira, dezembro 19, 2006

Porque brilha


Toda vez que a porra bate em seu estômago, ele não agüenta. Tira os olhos da vida porque em nada há de caber com esse corpo e essa dor. Enjoa, sua dor é só um enjôo crescendo e tomando conta da boca. Parece sem sentido que se trabalhe tanto apenas pra se conseguir isto: minúsculos comprimidos. Cápsulas de cores tão vivas. Joga toda sua energia toda atrás disto, em torno disto, buscando isto. Machucado com vodca. Vinho tinto. Conhaque. Mas bem que ele prefere com uísque. Sim, o que mais gosta é com uísque. Dois, três. Esprimidinhos no fundo do copo. Mudando a cor da bebida e dos olhos. De todo e qualquer objeto que atravessar o campo dos olhos. Na hora é tão bom. Tudo é excessivamente brilhante. Vê um cara de terno escuro com um guarda-chuva laranja. O cara brilha como se fosse de inox polido. Prata. Lataria banhada de sol. Sabe-se lá mais o quê. Mas, não, espere: o guarda-chuva ficou vermelho. E dói nos olhos. Gostoso ver como o vermelho brilha. A vida não podia ser apenas um vermelho que brilha? Todavia, já está virando roxo. Por quê? Miséria. Perde-se tão facilmente aquilo que se conquista a ferro e fogo. Tudo bem, tudo bem. Não importa. Agora: azul-turquesa. Hein? Ah, verde-exército. Rosa-chiclete. Porra, de repente fica preto e perde todo o contraste com o terno escuro que o cara usava: marrom de óleo diesel. Foda-se. Quem vai se matar por causa de um guarda-chuva? Quem, cara pálida? Segue andando, pouco importa, senta na Praça do Medo, embaixo da estátua de pedra em homenagem ao livro. Ao ato de ler. Quer parar de ver bolhinhas pipocando no horizonte. Não pára. Se lembra que devia ligar pra alguém. Um amigo/amiga. Silvinho? Cris? Violeta? Zeca? Quem? Podia ligar pra Helena, mas não: Helena vai se queixar que Fernanda ainda não chegou de viagem, que isso a deixa muito preocupada, e patati-patatá. Mulheres sapatas. Bah! Que saco. O enjôo de novo. Grita que tem tanta dor dentro de si que quer explodir toda a cidade. Vai vomitar, não vomita. Um travesti pergunta se ele quer trepar. Dá o braço a ele/ela. E vão caminhando. Pra onde? Não sabe? Pro seu apartamento, ele diz, ou pro meu. Me dá um cigarro. Você tomou bola, gatinho? Porra de gatinho, me chame pelo meu nome. Mão suada presa na sua. Riso alto. Você vai ficar de quatro pra mim, vai? Até de oito, meu amor. Tô ficando enjoado de novo. Por que, benzinho, por minha causa? Segura a mão do outro, mais forte. Não, por você não, você é jóia. Passa o braço na cintura do travesti. Aperta: não me deixe cair, eu estou tonto. Toda vez que essa porra bate no seu estômago, ele não agüenta. Segura a bolsa do travesti, enquanto o vê abrir a porta de entrada do prédio. Um gato mia, imitam-no, subindo as escadas de dois em dois degraus. Ele vai atrás do outro e lhe dá uns beliscões. Parece ser bonita aquela bunda na sua frente. Mas, não, caralho, vai vomitar, agora, não!, se segura. Não vomita. Começa a passar lentamente. Eles se beijam na boca quando entram no apartamento. Está ficando meio vidro perdido no escuro. Os brincos do outro. Balançando. A única luz vem do letreiro do bar lá de fora. Quer beber alguma coisa?, o travesti pergunta de mão cravada no pau. Quero. Uísque, tem? Dos bem baratos, gatinho, é só o que eu posso comprar. Faz mal não, serve. O travesti se afasta pra buscar a bebida. Bruno tira outro comprimido e põe na boca. Mais outro. Você toma tanta bola assim, gatinho? Vê se tira logo essa roupa cheia de rendinhas, tá me irritando o peito, ele reclama. O outro ri, vai tirar já-já. Gatinho, gatinho, mania mais besta... Fica de costas. Pisca os olhos. O cara de paletó marrom de óleo diesel de novo. Está molhado de chuva. Começa a chover horrores na sala do travesti. Casa com goteiras. Que nada, o outro diz, não tem chuva alguma, venha cá, benzinho, vem. O paletó ficando cinzento, prateado, dourado, bronze. Ele adora tudo que brilha. Mordem-se no pescoço. Toda vez esse revirar no seu estômago, enquanto na cabeça ele ouve blim, blom, blim, blom. Tem sinos na sua casa, cara? Tem não, meu amor. O travesti tira toda a roupa e cai no sofá. Bruno tira o membro pra fora, desce as calças até os joelhos e vai naquela direção. Mirando o meio das pernas do outro. A bunda do outro realmente não é nada mal vista assim. O cara aparece novamente, está sem o guarda-chuva, Bruno não consegue entender. O paletó tem remendos nos punhos, isso é novo, nunca se reparou antes. Mas não, não pára, brilhe, brilhe forte, assim, até o final. Agora é mais que vidro perdido na escuridão, é meio fosforescente também. Ele é alucinado por coisas que brilham. Mesmo que essa porra continue fazendo peripécias no estômago, a sensação do amor, de repente, a encobre. Bruno olha os braços do outro apoiados no sofá, sustentando o corpo, as pernas se dobrando abertas, quase de quatro e dizendo sacana “só fico assim pra você, amor”, ao que ele responde: yeah, eu sei, eu sei.

quinta-feira, dezembro 14, 2006

fonema não fode.
sua lavra nunca traduzirá
a manhã azul que se projeta
da buça dela.
sua lavra nunca traduzirá
o cheiro-sujo que a pica aspira,
mela gengivas
o pau procura palavra,
mas palavra nunca traduzirá
a buça aberta.
(João Filho)

Qual foi a natureza das coisas que amei?

Está muito, muito quente. Ainda não é verão, mas a cidade ferve e é repleta de urgências como se vivesse em verão pleno.

Quem sabe quando deixaremos de procurar com ânsias sentir a proporção inteira daquilo que desejamos? Quem sabe se, ao termos o que desejamos, apaixonadissimamente, perderemos o hábito/gana/angústia da posse?

Talvez leve, em harmonia, como a assimilação de contéudo & forma, ficando menos longe e menos dor, ficando sempre pele e sempre viço.

Conseguiremos?

A manhã está doce de tão serena. As preocupações de ontem desaparecem. Efeito da indecisão do tempo. O céu está nublado e há rumores de chuva, mas o sol persiste entre nuvens com sua luz cristalina.

Os olhos recaem a cada terço de hora nos flamboyants vermelhíssimos do pátio do Colégio 02 de Julho.

Sentir a natureza das coisas que amamos. Constitui uma linguagem, percebe? Isto é, nós dois, eu te amo e jamais brigamos. É puro pensamento, reles manhã.

quarta-feira, dezembro 13, 2006

Mais...


UIVO

Já não escuto o que é agudo ou grave,
Mesmo as aves são mero vôo obscuro.
Ouço apenas os mudos,
estes lobos de olhares ocos
a percorrer bosques de fome,
onde tateio uivos.

(poema de Marcus Vinícius Rodrigues, In: Tanta Poesia)

mais um pouco de Tanta Poesia
















Naftalina

Pouca pouca roupa, pouco pouco a te cobrir/ louco louco sobre mim/ coxas, línguas, passo, passas/ boca a boca, / ninguém a nos adivinhar, ninguém por nos descobrir/ o tempo todo recolhidos,/ jornais a falar, a falar por prazer/o massacre é a indefinição, o massacre é a desintegração/violentamente você saindo de dentro/ de lá do abismo mais escuro/onde não se ouve, não se julga, não se mede/ só mata-se, mata-se, mata-se/sem sol, sem frio: intactamente sobre o mármore/ nem sonho nem jardim: inescrupulamente guardados/ vedados, próximos às traças, próximos às aranhas/ mas você gosta de cupins e você sabe evitar o murmúrio/tão dentro de mim não há barulhos/ nem o ir e vir cansado dos carros diante dos prédios/ não há tua palidez, tua brochura/ tua invalidez, teus cabelos caindo brancos/ há o perfume da coisa abarrotada, da coisa apodrecida, encarcerada/ da coisa transtornada, paranóica, xilocainizada/ revertendo quadros, espera incansável/ de ser novamente aberta, novamente soprada/ de ser outra vez arejada por você. (Állex Leilla)

terça-feira, dezembro 12, 2006

Tanta Poesia


Dia 07/12/2006, no café Goethe, do ICBA, foi
lançada a Antologia Tanta Poesia, da qual fazem
parte 07 poetas, dentre eles, io!


Poeminha retirado da antologia:


Adolescência
I

(Para Jairo Castro de Andrade)


Pássaro distante, jamais nosso,
é um vôo no deserto, no muito pouco
que escapou de ti ontem.
Nunca mais vou olhar qualquer inocência da janela,
nem o sorriso velho, que nem cristal mal reluzido,
pode acordar o que antes ardia por querer.
O nosso estar cansado, o nosso não sem sentido
foi o que mais cresceu. E cresceu tanto
que as raízes derrubaram
a doce casa de portas amarronzadas.
Eu tive que me esconder
nos cacos, na desordem
enquanto você levantava vôo.
Você hoje não pode mais saber
se houve desejo pelo teu pouso,
se eu, aliviada, sorri,
se eu, desesperada, ergui
pedra por pedra, caco por caco,
pra sentir na ponta dos dedos
onde é que o fim fere mais.
Eu te disse que tudo é passado,
mas foi outra forma de mentira,
pois dores não têm ontem, hoje, amanhãs,
elas ficam fixas,
como as cores daquela época,
entre a pele e o cérebro.

Paulistânias II

1 Você deve esquecer que dormiu mal, que dorme mal há semanas, desde que se mudou pra cá. Esse negócio de deixar o negativo de lado (qui...